Brian Wilson, músico, compositor e produtor dos Beach Boys, criador de algumas das músicas pop mais puras da história, faleceu aos 82 anos.
Brian Wilson teve a sua morte anunciada na passada quarta-feira 11 de Junho, inovou a música com os seus arranjos e harmonias sofisticados, além do uso pioneiro de elementos orquestrais nunca antes utilizados em gravações de discos. Uma alquimia tão singular que influenciou os próprios Beatles — com quem os Beach Boys passaram a nutrir um saboroso misto de rivalidade e admiração mútua da seda musical das suas criações. Paul McCartney já declarou que, sem o álbum "Pet Sounds" dos Beach Boys, o disco "Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band" jamais existiria, mas foi ao ouvir o então recém-lançado álbum dos Beatles - "Rubber Soul" em 1965, que tudo mudou disse Brian Wilson - “Fiquei impressionado e, realmente, senti-me desafiado a fazer um grande álbum” - "Pet Sounds". A admiração e aprendizagem era mútua entre os maiores compositores da música pop/rock do século XX e Paul McCartney disse certa vez: "Imagino que ninguém tenha formação musical até ouvir 'Pet Sounds' . Adoro a orquestração, os arranjos — talvez seja exagero dizer que é um clássico do século — mas, para mim, certamente é um disco totalmente clássico, imbatível em muitos aspectos. Já toquei 'Pet Sounds' muitas vezes e chorei".
Conheci Brian Wilson e falámos pessoalmente em 2004, quando da sua visita e uma série de espectáculos em São Paulo, no Brasil. Foi e será sempre um ídolo para mim e por isso agradeci-lhe a ele e aos seus falecidos irmãos Carl e Dennis, os fabulosos momentos de alegria e felicidade que me tinham proporcionado com as suas espectaculares composições e ele, com aquele seu ar etéreo e de boas vibrações, olhou para mim com os olhos humedecidos, abraçou-me e só me disse: "Deus te abençoe, meu irmão". Inesquecível momento para mim!
Nascido em Inglewood, na Califórnia, a poucos quilômetros da praia, ele formou os Beach Boys com seus irmãos Dennis e Carl Wilson, o primo Mike Love e o amigo e vizinho Alan Jardine. Começou por escrever e compôr canções harmonicamente bem elaboradas sobre o surf, então a nova mania das praias na época, lindas garotas e celebrando o clima da ensolarada Costa Oeste dos Estados Unidos. Curiosamente, Wilson nunca surfou e quando tentou, levou uma pancada da prancha na cabeça. O surf não era a sua praia, mas a sua surf-music seria o início da sua glória musical, com sucessos universais como: "Surfin' U.S.A.", "Fun, Fun, Fun", "Surfer Girl" ou "California Girls", entre tantos e tantos outros.
Como principal força criativa dos Beach Boys, Brian criou um som despreocupado, mas melancólico, utilizando técnicas de estúdio ambiciosas para conferir à música da banda uma grandiosidade electrizante e, assim, as suas canções sobre surf, carros e garotas foram-se moldando para um material mais reflectivo, introspectivo e até psicadélico, tornando-se num dos compositores mais aclamados da música americana, como no álbum "Pet Sounds", de 1966, dos Beach Boys – escrito e produzido quase inteiramente por Brian Wilson – e que é considerado não apenas a obra-prima do grupo, mas, para muitos, um dos melhores álbuns de todos os tempos.
Músico nato, desde muito cedo com uma afinação sonora perfeita, aprendeu piano enquanto ele e seus irmãos mais novos, Carl e Dennis, se apaixonavam por R&B, Rock'N'Roll, Doo-Wop e Pop Music. Ele e Carl juntaram-se ao primo Mike Love para formar o grupo de liceu "Carl and the Passions", trazendo mais tarde Dennis e o amigo Al Jardine para formar os "Pendletones", tendo como inspiração o grupo vocal "The Four Freshmen".
Eles foram incentivados pelo pai de Wilson, Murry, com quem Brian tinha um relacionamento complexo e que o agredia fisicamente, de tal forma que numa das sevícias físicas fez com que Brian ficasse surdo de um ouvido, mas que não o impediu de ser um compositor, músico e produtor fantástico (Bob Dylan chegou a dizer que o outro ouvido dele era tão refinado que deveria “ser doado ao Smithsonian”, em referência ao famoso museu americano e instituição educacional e de pesquisa).
A primeira música de Wilson para o grupo, logo renomeado "The Beach Boys", foi Surfin’ em 1961 — o primeiro de uma série de sucessos escritos por Wilson, que se tornou produtor e compositor a partir do terceiro álbum - "Surfer Girl", impulsionando o grupo com um ritmo de trabalho surpreendentemente alto e de qualidade extrema, lançando 15 álbuns antes do final da década de 1960.
Brian Wilson atingiu a glória musical cedo, aos 22 anos — mas o sucesso se revelou nos anos seguintes um fardo capaz de consumir seu talento e saúde mental.
The Beach Boys eram o maior grupo norte-americano de sucesso mundial, com os milhões de discos vendidos e as inúmeras tournées pelo mundo inteiro, mas depois de Brian ouvir o álbum dos Beatles "Rubber Soul", ele parou de fazer tournées e enfurnou-se no estúdio com os colegas da banda, acompanhado de instrumentos não convencionais e tudo o que pudesse produzir som, desde garrafas de Coca-Cola e sirenes de bombeiros até sinos de bicicleta. O resultado foi "Pet Sounds", disco que à época foi um fracasso comercial, mas com o tempo se mostrou um dos mais geniais e influentes da história — senão a mais perfeita de todas as pérolas do pop, na visão de muitos e onde está incluída a canção "God Only Knows", que Paul McCartney já considerou ser "a melhor música já escrita".
No entanto o então insucesso comercial de "Pet Sounds", e todo seu empenho criativo, levou Brian Wilson a uma crise de depressão, pelo que começou a usar cannabis e LSD, e disse que este último era criativamente útil. Mas esse uso de drogas, somado à sua intensa carga de trabalho, provavelmente exacerbou problemas de saúde mental que começaram quando ele era adolescente e sofria de ansiedade. Ele ouvia vozes na sua cabeça, passou um tempo em hospitais psiquiátricos no final da década de 1960 e isolou-se um pouco de seus colegas de banda. Brian acabaria sendo diagnosticado com transtorno esquizofrénico e uma leve depressão maníaca.
No meio dessas dificuldades físicas e mentais, durante as suas viagens psicadélicas, voltou ao estúdio com objetivo de compor outro disco. Deu tudo errado. Os meses de gravação foram repletos de excentricidades e, assim, o álbum seguinte do Pet Sounds, "Smile", nunca foi concluído (embora tenha sido posteriormente adaptado para um álbum a solo em 2004, e as gravações originais acabaram sendo lançadas como "The Smile Sessions" em 2011),
Entrou num longo período de letargia e viveu vários anos só no seu quarto e deitado na cama e os seus companheiros dos Beach Boys começaram a contribuir mais para as composições, embora composições de Brian ainda aparecessem ocasionalmente, enquanto o grupo emergia de uma crise comercial no final da década para gravar os aclamados álbuns "Sunflower" e "Surf's Up" , cuja faixa-título deste último representa um retorno psicadélico de Brian.
Após a morte do seu pai, o início dos anos 70 foi um período difícil para Brian, com o aumento do consumo de drogas e o isolamento novamente. Ele voltou aos Beach Boys para o álbum "15 Big Ones", de 1976, mas recaiu novamente no alcoolismo, no abuso de drogas e na compulsão alimentar no final da década; também sofreu com a morte do irmão Dennis, que se afogou em 1983. Após uma série de colapsos mentais, Brian Wilson passou a tratar-se com um psicoterapeuta controlador, Eugene Landy, cujos métodos pouco ortodoxos em nada colaboraram para a sua melhoria. Landy chegou, inclusive, a assumir os créditos de algumas de suas composições e a controlar as actividades financeiras e profissionais de Brian Wilson. Nos anos seguintes, Wilson teve uma significativa melhoria. O seu equilíbrio melhorou nos anos 1990, com a ajuda, carinho e amor da sua nova esposa, Melinda Ledbetter, e com a desvinculação de qualquer acordo quer terapêutico, quer profissional e financeiro com Landy, que havia se intitulado um colaborador na composição de músicas e foi incluído no testamento de Wilson por meio de um acordo de tutela, revogado através de uma ordem de restrição contra Landy, solicitado pela sua nova companheira e pela sua família mais próxima.
Brian Wilson voltou a fazer turnês e a lançar álbuns a solo ocasionais, e reuniu-se com os Beach Boys em 2011 (agora sem Carl Wilson, que faleceu em 1998) para uma tournée e lançamento do álbum "That's Why God Made the Radio". O grupo separou-se mais uma vez, com Love excursionando sob o nome da banda e com Brian Wilson e Al Jardine excursionando juntos separadamente, incluindo a tournée do 50º aniversário do "Pet Sounds", em 2016.
Em 2021, Brian Wilson vendeu os seus direitos autorais para a Universal por US$ 50 milhões e fez o seu último show em 2022, como parte de um tour em conjunto com o grupo de Rock "Chicago".
Em 2024, foi anunciado que Wilson sofria de demência.
A vida de Wilson foi muitas vezes tumultuada, o que lhe rendeu a reputação de génio atormentado nos círculos musicais e foi homenageado com dois prêmios Grammy, induções ao Hall da Fama do Rock and Roll e ao Hall da Fama dos Compositores e reconhecimento do comité de Honra do Kennedy Center em 2007, tendo grande destaque no cenário da música moderna, inspirando artistas que vão dos "R.E.M." e "Radiohead" ao "Daft Punk" e "Wilco".
A vida deste génio musical também deu origem a um documentário ("Brian Wilson: Long Promised Road", de 2021) e a uma cinebiografia estrelada por John Cusack e Paul Dano ("Love & Mercy", de 2014), a não perder.
Deixamos aqui a nossa mensagem de até já para Brian Wilson e o seu ouvido que sempre ouviu os anjos, corroborando a linda e doce mensagem deixada por Nancy Sinatra: "A tua querida música viverá para sempre enquanto tu viajas pelo universo e o além”.
QUE DEUS TE ABENÇOE, QUERIDO BRIAN !
